GOYA (1746-1828)
     Talentoso e versátil, pareceu antecipar muitos dos movimentos de arte do século XX.
Nasceu num povoado da Espanha e com 17 anos foi a Madri. Sua intenção era competir por um posto na Academia, o que só vai conseguir na Itália onde recebe o 1º. Prêmio da Academia Real de Belas Artes e assim volta engrandecido para a Espanha.
     Casa-se com Josefa Bayeu, irmã de um dos pintores da corte espanhola. Desta forma ingressa no Palácio Real onde faz cartões (destinados aos tapeceiros da Real Fábrica de Santa Bárbara) e obtém grande sucesso. Abaixo, temos um exemplo de cartão que foi transposto para a tapeçaria. Demonstra o ar galante e refinado do rococó.

O Guarda Sol
     Logo será nomeado pintor oficial e começa a fazer retratos. O rei Felipe IV implica com as tendências liberais de Goya, pois este começa a demonstrar ironia e desencanto pela corte, com suas desonestidades e corrupções. As personagens que pinta, parecem sentir-se deslocadas, incomodadas, psicologicamente esquivas. E nesta arte de captar a alma dos retratados ele se tornará um mestre. Quando pinta a família real em declínio, faz um desfile de mediocridades, máscaras de tolos, de ridícula altivez. A Rainha Maria Luísa de Parma é feia e desngonçada, o rei Carlos IV é débil e demonstra violência contida. Só as crianças se salvam entre sedas, insígnias e bordados(a Pedagogia nasce nesta época elas mãos de Jean-Jacques Rousseau).
A família Real de Carlos IV(1800-1801)-observar no lado esquerdo está o próprio Goya(faz um jogo ao modo de Velazquez)

     Em 1779 uma doença paralisa Goya por meses e o deixa praticamente cego. Ao recuperar-se, descobre-se totalmente surdo. É nesta convalescência que conhece a duquesa de Alba, primeira dama depois da rainha, e fica por um tempo em sua casa de campo.  A relação entre o pintor e a duquesa (bela, extravagante,orgulhosa, caprichosa e altiva como era o estilo aristocrático espanhol) deu muito o que falar! O duque, seu esposo, falece e a amizade entre os dois se intensifica.
     Nos anos seguintes, Goya imerge em grande atividade. Retratos, afrescos, água-fortes. O período é de grande produtividade.
     Em 1808 a França invade a Espanha e a família real é expulsa. O rei agora é Bonaparte(José, irmão de Napoleão) que “a princípio é bem recebido por uma minoria de intelectuais que esperavam reformas para o país atrasado e explorado pela Igreja e pela aristocracia”(Rainer Hagen). Mas, franceses e espanhois eram muito diferentes e só se poderia esperar mal entendidos entre eles. O povo espanhol estava educado para a Igreja e para ser fiel ao Rei. Mas a guerra civil se instala e os horrores grassam por toda a parte.
     Goya aprofunda seu sentimento de tragédia, tanto no campo pessoal como no social. Sua esposa falece em 1812. Neste período faz a conhecida pintura “3 de maio de 1808 em Madri: os fuzilamentos na Montanha do Príncipe Pio” datada de 1814. "Para cada francês morto, 5 espanhóis morrerão" diz um general francês.
    A cena é do fuzilamento pelas tropas francesas de um camponês que viera trazer seus produtos ao mercado. No chão ensanguentado, três cadáveres. Outros esperam na fila a descarga das armas. No centro do quadro, está o coitado, braços em cruz, imaculada camisa branca, olhos que espelham o terror da morte iminente. diante dos soldados-robô, máquinas sem rosto. É noite e ao longe está o perfil da cidade de Madri(que hoje já não existe, há uma praça neste lugar). Pela primeira vez a guerra era descrita como algo fútil, sem glória ou sentido.Tudo se reduzia a assassinatos e covardias.


     Em 1814 a corte é refeita com Fernando VIII e Goya se reinstala como Pintor Oficial. Sua posição, no entanto, não é mais tão sólida quanto antes. Chamado pela inquisição tem de responder por obscenidade pelos quadros “La maja vestida” e “La maja desnuda” (ainda hoje, há dúvidas se a retratada é a duquesa de Alba ou Pepita Tudó, sua amante). É, sim, uma dama de origem nobre que se diverte bancando a plebeia, despreocupada e provocadora. É uma pintura cheia de luz onde a matéria da tinta é fluida e transparente.




     Em1819 ele começa (recém saído de outra doença) a sua série de pinturas sombrias "as pinturas negras” povoadas de bruxas, demônios, seres disformes e grotescos (que aliás estiveram aqui no MASP e são para mim o melhor de Goya).
    Goya está desencantado com a vida na Espanha. Desanimado, sem vivacidade, a alegria desaparece de suas pinturas. Junto com a doença, passa a não ter mais respeito pela aristocracia. Já nada “enfeita” e passa a dar aos seus retratos a verdadeira alma dos retratados. Sua arte se transforma em uma arma ao insano comportamento da aristocracia e a falta de sentido do sofrimento humano. Ele pinta para si mesmo.No final, morre de problemas neurológicos, surdo e tomado de convulsões.


    Sua pintura “Saturno devorando um de seus filhos” que fazia parte da decoração dos muros da casa de Francisco de Goya, é uma das imagens (afresco) mais horrendas e geniais que se possa conceber.
     Sugiro o filme de Carlos Saura “Goya in Burdeox”. Belíssimo filme  em cores pastéis, próprios de Goya em seus últimos meses de vida. Um belo e fiel relato que penetra a dimensão humana da obra e vida deste pintor, talvez o primeiro pintor da era moderna.
Angela Weingärtner Becker
Gregos, nossos ancestrais culturais

foto: by Alexey Krasin
     A mitologia é apaixonante, instrutiva, poética. Era uma forma de explicação do mundo, dos homens, dos fenômenos nos tempos primordiais.
      A missão mais importante dos heróis era garantir a ordem do cosmos. E era assim que eles ganhavam uma espécie de perenidade. A pior coisa que poderia acontecer ao homem, era o esquecimento. Este se assemelhava à morte. Se conseguir se tornar objeto de lenda ou mito, o ser humano escapa da morte. Será recordado, talvez, para sempre.
     Lembremos que o Hades é a personificação de um lugar onde ninguém tem rosto nem memória, nem nome. Os mortos perambulam sem direção, sem identidade. Este é o  “inferno”. A todo o custo era preciso escapar do Esquecimento. Daí termos os heróis Aquiles, Ulisses, Perseu e outros que, por inteligência, coragem e astúcia obtém a glória e assim ficam livres do Hades.
     Não é para menos que viviam guerreando. Na guerra há oportunidades de heroísmo e conhecimentos. A guerra também se constituía no melhor dos esportes.
    A Grécia, naquela época não ocupava área geográfica definida. E nem era centralizada politicamente. Havia cidades-estado (polis) mas seus habitantes tinham plena consciência de serem da mesma raça, língua e cultura.
    O século V a.C. é o século clássico por excelência, é a Idade de Péricles. O Parthenon foi aí construído em marfim e ouro por Fídias. E é hoje ainda um dos pontos altos da arquitetura de todos os tempos. Neste século V, todos os intelectuais vão para Atenas que se torna esplendorosa.
foto by Labrakos

    Por que os gregos chegaram a este estado de sabedoria em ciência, artes, política e filosofia? Certamente porque não viviam sob uma classe detentora do conhecimento. Lá o poder era dessacralizado. Havia sacerdotes, mas estes eram gente do povo e não tinham conhecimento esotérico. Viviam um tempo como sacerdotes e depois voltavam à vida de cidadão comum. Eles nunca estiveram à mercê do sobrenatural. Pensavam por si mesmos. Os mitos gregos não são escrituras sagradas. Não são criados por guias espirituais, não são artigos de fé. Não são dogmas. Seus deuses dormiam com mulheres comuns, tinham defeitos e qualidades humanas. Eram deuses antropomórficos. Seus pecados, se assim se pode dizer, não eram individuais, eram sim contra a ordem do cosmos, por isso considerados tão graves pois feriam a harmonia de tudo e todos.
    Do mito vão passar ao “logos” que é razão, investigação. Tudo é explicado primeiro pelo mito e depois pela razão. O saber não lhes é dado por “revelação” onde o sacerdote, depois, irá usar da forma que melhor lhe interessar.
    Além da Democracia, Ciência e Filosofia, os gregos se destacaram também nas Artes. O seu caminho será o do naturalismo, que é imitação da aparência visível das coisas. E o maior tema da Arte grega será a Mitologia.
    Até o século XIX, teremos a influência da arte grega em nosso mundo ocidental.Eles são nossos ancestrais culturais.


    Em 1600-1200 a.C. vai aparecer a Ilíada e a Odisséia supostamente escrita por Homero. Muitas invasões e uma catástrofe (que ninguém sabe bem o que foi) aconteceu e destruiu a civilização. Existem tábuas de cerâmicas daquela época que ainda não foram decifradas.
    Em 1876 o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann escavou o sítio arqueológico do Hissarlik, revelando 7 cidades superpostas, construídas em sucessão uma à outra. Uma das cidades descobertas foi Tróia VII (identificada com a Troia homérica). Assim fica provado que realmente Homero tem fundo histórico e não apenas lendário como se poderia pensar.

                                                          teatro Grego Epidauros

    Em 1200 a. C. Perde-se a escrita e com ela a cultura. Volta-se à vida pastoral.Há um vácuo cultural-espécie de idade média da Grécia.O motivo ainda é obscuro. Guerras? Catástrofe natural? Invasão dórica? Esta última hipótese é o que a Grécia aceita como verdade.
     Só no século VIII a cultura é recuperada.
     Espanto-me toda a vez que lembro de Epidauros, quando a guia grega, toda vestida de preto, levava algumas pessoas ao teatro, localizado a uns 100 km de Atenas. Pediu que subíssemos ao último degrau do teatro. Do alto víamos uma formiguinha, ela, lá em baixo, no centro da arena. A grega amassava um papel de bala. Ea gente, lá em cima, ouvia o barulho como se ela estivesse bem ao nosso lado. A acústica perfeita do teatro, local escolhido a dedo entre montanhas e ventos, trazia o som aos nossos ouvidos, com uma nitidez inacreditável. A ciência daqueles gregos de antes de Cristo fazia milagres.
Angela Weingärtner Becker
Ulisses- nostálgico e sedutor

Ulisses e as sereias (Herbert Draper)

     Na Odisséia, como sabemos, Homero narra a história do herói da guerra de Tróia, Ulisses, voltando para casa onde deixou seu pai, sua mulher Penélope, e seu filho Telêmaco. A terra é Ítaca, onde ele é rei.

     Ulisses é um homem, não um deus, sequer é um semi-deus. Durante sua volta ele enfrenta obstáculos quase intransponíveis como sereias, feiticeiras, monstros, tempestades, ventos, furacões. Vai até o inferno (Hades) onde reina o esquecimento. Enfrenta desordens externas e internas. É ludibriado, recebe a promessa de se tornar imortal e jovem para sempre, pela deusa Calypso. Ulisses tem de ser bravo e persistente senão corre o risco de não mais querer voltar para casa. Deve lutar contra o sono e a tentação do esquecimento, a tentação do “mais fácil”. Deve estar sempre consciente de “quem ele é e do que realmente quer”. Sua luta é contra a hybris, a desordem cósmica (contrário de oikós harmonia). Zeus muito trabalhou para colocar o cosmos em ordem e Ulisses sofre tentações de toda a espécie para cair em desarmonia contra este cosmos. Todos os seus companheiros sucumbem, Ulisses é o único sobrevivente.

     O alcance filosófico da personagem Ulisses está, conforme diz Luc Ferry em seu livro “A sabedoria dos mitos gregos”, em entender que o homem, para ser feliz, precisa estar em sua casa.
         
     Ulisses sente nostalgia que é o doloroso desejo de voltar para casa. É “uma vontade intensa, mas sempre contrariada, de voltar a seu ponto de partida, ao país, ao lugar onde nasceu”. E, como os românticos alemães muito bem definiram, é o bei sich selbst (seu lugar interior) ou então Heimweh (seu lugar geográfico). É o que sentimos quando estamos fora de nossa “Ítaca” pessoal. Luc Ferry diz que nos movemos para o nosso lugar natural de onde fomos deslocados. Isto é a ordem cósmica buscada por Ulisses e, enfim, por todos nós. Esta harmonia é melhor do que a imortalidade, oferecida por Calypso. A condição de mortal é harmônica com o homem, ao contrário da imortalidade artificial que o despersonalizaria tornando-o estranho aos companheiros e até de si mesmo.

     Ulisses precisa ser o que ele realmente é. Precisa voltar à sua Ítaca, ser um mortal ser aquilo que a qualquer preço e sacrifício vai levá-lo ao seu ponto de partida. Esta é a forma que a mitologia vai legar à filosofia: uma “espiritualidade leiga”, como diz Luc Ferry, e que Ulisses é o primeiro a encarnar. O pecado da hybris, ao contrário do que muitas religiões concebem, não é pessoal e sim de dimensão cósmica.

    E, diga-se, Ulisses apresenta-se justamente por isso, com muito charme. Ele é astuto, sábio, corajoso. É um homem "de verdade" que, com toda a experiência e conhecimento adquiridos nas provações da viagem, será um homem que mulher alguma vai resistir. É sedutor, não por atributos físicos, mas por sua determinação e sabedoria. Ele é inventivo, tem coisas para contar, é um homem completo, que olhou “n” vezes a cara da morte. Escolheu sua humanidade e repudiou a hybris. Luc Ferry termina esta explicação de homem sedutor dizendo que mulher alguma consegue viver por muito tempo com “um homem mimado”, vazio. Penélope, esta mulher forte e fiel, merece um homem à sua altura, merece Ulisses.
                                                                              Angela Weingärtner Becker

Vincent Van Gogh (1853-1890)


A cada ano o Museu van Gogh, em Amsterdan, se inunda de 1 milhão e meio de visitantes para ver van Gogh. Ele adquiriu (para muitos e me incluo nisso)  uma proporção quase mística. A caminho de uma exposição sua, sentimo-nos em peregrinação.
Jamais esquecerei quando, no Museu D’orsay, vi uma exposição especial sobre ele. Tive de sair da sala, estava aos prantos, precisei me recuperar, pois soluçava. O espaço se tornava sufocadamente claustrofóbico para tanta emoção. A intimidade de seu quarto em Arles, seu médico Dr. Gachet, o carteiro portador das cartas de seu irmão Theo, seu autorretrato de orelha cortada em briga com Gauguin, os girassóis que fez, cheio de planos, para sua nunca realizada comunidade de artistas, o pátio da clínica onde se internava, sua última pintura em traços convulsos (Campo de Trigo com Corvos) tudo isso era  ferida exposta para quem quisesse ver. E também a beleza das noites estreladas, das Iris, dos trigais dourados.

Surpreendentemente sua vida de pintor durou muito pouco: 10 anos. Porém  de um frenesi absurdo de trabalho:1100 desenhos, quase 900 pinturas, ilustrações, cartas, muitas cartas, onde demonstrava conhecimento profundo das Artes.
Não se sabe muito sobre sua juventude, mas possuía outros quatro irmãos, sendo que Theo terá um papel importante em sua vida.
Nada indicava que ele se destacaria na pintura. Introvertido, excêntrico, conseguiu um emprego aos 16 anos, junto à sucursal que os pintores franceses mantinham em Haia. De lá vai para a mesma loja sediada em Londres e depois em Paris, que era a sede central da Goupil & Co, onde trabalhava seu irmão.

Lá começou a dar sinais de interesse religioso em suas cartas à familiares, fazendo-se pastor protestante, como seu pai. É mandado para uma pequena região mineira belga onde ganhou o apelido de “Cristo da mina de carvão” pois pregava para os pobres e desamparados. É destituído do cargo e cai em crise depresssiva.Tinha 27 anos e se sentia perdido na vida. Theo, que o sustentava economicamente, lhe sugeriu que tentasse ser artista.
 Desde sempre fez esboços, mas sentiu-se inseguro. Combinou com Theo, que enviaria seus desenhos periodicamente, em troca de seu sustento. Era preciso mantê-lo interessado em alguma coisa.

Vincent era autodidata e para se tornar um pouco mais profissional, passou uma temporada em Bruxelas. Devora livros de anatomia e perspectiva. Observa seus contemporâneos. Mas o alto custo de vida obrigou-o a voltar ao interior, à casa de seus pais. Os camponeses foram seus modelos. Mas volta para Haia depois de um desentendimento com o pai. Começa a pintar aquarelas e ao final de 1882 inicia a pintura a óleo. Animado pelas histórias contadas pelo artista Rappard, vai ao norte para pintar a vida no campo. Não é aceito pelos camponeses e torna a voltar para a casa dos pais. Nesta ocasião pinta “Os comedores de batatas”. Escreve a Theo: “que uma pintura de camponeses cheire a toucinho, fumo, batata à vapor, muito bem. Parece-me saudável que um estábulo cheire a esterco, pois que um quadro de camponeses não poderia cheirar a perfume”

O pároco do lugar proíbe os camponeses de posarem para van Gogh. Ele volta para Ambere onde faz um curso na Escola de Bellas Artes.
Ao final de 1886 chega- sem avisar!- no pequeno apartamento de Theo, em Paris,  que obriga-se a pocurar um lugar maior.
 Montmartre abre um novo mundo a van Gogh: Milliet (por quem é apaixonado) Delacroix, Manet, Monet. Encontra-se com Toulouse Lautrec que se encarrega de o apresentar à  noite de Paris e o expõe ao álcool, absinto, prostituição.
Faz 27 autorretratos, pois estes não requeriam modelos, a não ser ele próprio.
Em Paris conhece Gauguin com quem vai de muda para Arles, sul da França. Como sua saúde já estava bastante debilitada pelas noites boêmias de Paris, esperava recuperar-se no campo. Melhorou mesmo, e com ele sua pintura virou uma primavera de amarelos fulgurantes, azuis de vitrais, intensos vermelhos. Ele passa a fazer planos: quer fundar uma colônia de artistas. Aluga quatro casas para tal. E pinta muitos vasos com girassóis para decorá-las. Gauguin deveria ser o líder desta comunidade. Os dois trocam técnicas e inspirações. Mas não contavam que seus temperamentos igualmente obsessivos, iriam pegar fogo em violentas brigas. Numa dessas van Gogh corta sua própria orelha esquerda. Gauguin, furioso, se vai para sempre, para suas ilhas tropicais.

Van Gogh sofre todo o tipo de problemas: desde dores de estômago, maus dentes, até graves alucinações, depressão. Interna-se voluntariamente no sanatório de Saint-Rémy. Lá pintaria o pátio, as naturezas mortas, tudo sob observação do sanatório. Neste período algum interesse começava a surgir sobre suas pinturas. Theo conseguiu vender um único quadro “O vinhedo vermelho” que se encontra hoje no Museu Pushkin, de Moscou. Van Gogh estava fora do mercado de Arte. É recluso, estranho, um louco com seu chapéu ridículo onde instalou uma lâmpada para pintar à noite. Mas suas obras não são obras de um doente mental. Ali nosso olho encontra equilíbrio, harmonias internas, disciplina de cores e formas. Mas principalmente uma densidade humana jamais vista. Suas tensões na pintura estão absolutamente controladas. A gestualidade é vigorosa, a carga expressiva é plástica e estável.Suas pinturas possuem luz de vitral.Tem admirável senso geométrico. A proporção se junta à amabilidade das cores.


Em 1990, seguindo os conselhos de Theo e Camille Pissarro, van Gogh vai a Auvers-sur-Oise, perto de Paris. Estava sob os cuidados do Dr. Gachet. Ali produziria muito, praticamente uma obra por dia.
Theo, porém, farto de trabalhar para os outros, decide trabalhar por conta própria. Tiveram de apertar o cinto, economizar. “Minha vida também tem sido afetada desde sua raiz. Eu também não me mantenho mais firme sobre solo” diz numa carta ao irmão.
Van Gogh relata que está em depressão profunda e seus quadros expressam a dor de estar no mundo.

Em 27 de julho, dispara uma pistola em seu peito e agoniza dois dias na presença de Theo, até morrer. Os dois tinham trocado 6 mil páginas de correspondência.Um ano depois, fisicamente desgastado e mentalmente debilitado, falece Theo, vítima de uma sífilis mal tratada.
20 anos depois da morte de Van Gogh os preços de seus quadros disparam.
O nosso museu do MASP, afortunadamente, possui nada mais, nada menos do que 5 obras de Van Gogh, entre eles o famoso "O escolar"


                                              Marcel Duchamp (1887-1968)

     Como a maioria dos artistas modernos, Duchamp também parte do cubismo. Tem dois irmãos que são artistas cubistas. Na verdade o cubismo dura muito pouco em sua vida, mais ou menos um ano.Quando faz o “Nu descendo uma escada”-que trata de vários deslocamentos que vão se reduzindo- parece ter sido influenciado pela técnica fotográfica que consiste na obtenção de imagens de um movimento a intervalos regulares. A pintura é recusada no Salão dos Independentes e causa escândalo, tornando-o célebre. É convidado a se retirar do grupo cubista. Seria assim o começo de sua rebelião contra a pintura visual e tátil.

                                           Nu descendo uma Escada

     Passa então a se interessar não pela forma, mas pela ideia. “Eu queria fugir do aspecto físico da pintura, fugir da sua fisicalidade, eu queria colocar a pintura, mais uma vez, como coisa da mente”. Leonardo da Vinci concebia a arte como “cosa mentale”.
    Duchamp abandonou a pintura propriamente dita quando tinha 25 anos. Mas continuou “pintando” por outros 10 anos, porém numa tentativa de substituir a “pintura-pintura” pela “pintura-idéia”. Desde o começo foi um pintor de ideias. Não a concebia como uma arte puramente manual e visual.
    Em 1917, em NY, faz parte do grupo onde qualquer pessoa que pagasse 6 dólares poderia expor o que quisesse.Duchamp fica incomodado com a mercantilização da Arte. Com outros publica a revista de inspiração Dada: “The Blind Man” onde eleva à categoria de Arte, a ESCOLHA do artista.

                                                                                             Roda de Bicicleta
             
     Depois do “Nu descendo uma Escada” Duchamp se encaminha para seus revolucionários “readymade” que são objetos já prontos, porém deslocados de seu ambiente. (ao urinol invertido é dado o nome de “Fonte”. Nela há uma assinatura “R Mutt”, inspirada em Mutt e Jeff, personagens de histórias em quadradinhos. Mas também poderia ser o nome da empresa onde comprou o urinol, a “Mott Works”).Retira o caráter puramente simbólico da Arte.O urinol quebrou e Duchamp colocou outro no lugar.Sem problemas.
                                                                              A fonte
Este é o tempo da desmaterialização da Arte.O objeto é transmutado para o conceito.O urinol já não é mais um objeto.É arte. Pode fazer a obra à distância. O que vale é a ideia. Então pede à irmã que compre uma pá de recolher neve e que assine por ele. Chama-a de "Antecipação do braço quebrado"
     "La Mariée mise à nu par sés celebataires, même”ou “O Grande Vidro” é uma obra feita em duas placas de vidro duplo (2.65m X 1,73m) que começa a ser feita em 1915, é deixada inacabada até 1923, quebra em 1926, é consertada em 1931. Em NY diz que deixou inacabada por tédio de continuá-la depois de 8 anos, mas também deu a entender que não queria acabar com o mistério do enigma: “Na coisa inacabada a obra fica em processo”. Duchamp deitou o vidro por cerca de 3 meses para pegar poeira. Seu tempo se estenderia ao infinito. Ele trabalha junto com o Tempo. O tempo se incorpora à obra.
                                                                  "La Mariée mise à nu par sés celebataires, même"

     Há um livro muito bom, que recomendo com veemência - O Castelo da Pureza, Octávio Paz- que aborda a obra.

      Talvez os dois pintores que maior influência exerceram em nosso século sejam Pablo Picasso e Marcel Duchamp. Conforme diz Joseph Kosut “toda a arte (depois de Duchamp) é conceitual, em sua natureza. Porque a arte só existe conceitualmente”.
    Duchamp desmistifica a figura do artista. Evidentemente um readymade, objeto industrial comum e seriado, tem no mínimo, sua autoria compartilhada. A observação do espectador que gera o significado da obra -e que não pode ser dimensionada pelo artista- foi “matematizada” por Duchamp. Chama a este resultado de “coeficiente de arte”. Ele se referia ao que ficou latente na obra (aberta) e que nós, espectadores, completamos, cada um à sua maneira. Porção da obra que afinal participamos com o nosso significado.
     Ele tem fascínio sobre a linguagem: é o instrumento mais perfeito para produzir significados e, também, para destruí-los. O jogo de palavras é um mecanismo pelo em uma mesma frase exaltamos os poderes de significação da linguagem e onde se pode imediatamente, aboli-los.


     Tinha um interesse linguístico constante. L.H.O.O.Q. de 1919 é um título provocante e irônico( Elle a Chaud au coul-ela tem fogo no rabo) dado ao ícone da pintura universal onde ele dessacraliza o sentido histórico da Monalisa. Acrescenta à Gioconda bigodes e barbicha. Duchamp manteve durante toda a sua vida a atitude de não comentar as interpretações dadas à sua Arte. É considerado por muitos, o artista mais fascinante e desconcertante do século XX.
Angela Weingärtner Becker