obra de Girolamo Ciulla
Parthenon 

Estou certa de que se tivesse de escolher para a arca de Noé, uma espécime arquitetônica,
escolheria o Parthenon.
Escolheria por duas, três vezes, e ainda mais.
Nele, admite-se, não há uma linha sequer
que seja rigidamente hori
zontal ou vertical.
São ligeiramente encurvadas, para dar a ilusão de doçura.
Refinamentos matemáticos corrigindo a ilusão ótica.
Suas colunas, em blocos de mármore, ajustados sem argamassa,
Eram costuradas por dentro, com grampos de bronze e madeira.
Assim, em pedaços articulados, elas resistiram aos terremotos.
O Parthenon, todo ele, foi pensado como um corpo humano.
Excelência de técnica. Requintes para a deusa Atenea. 
                                                             Angela Weingartner Becker

 

Caspar David Friedrich

Caspar David Friedrich (1774-1840)


Ao entrar na Alte Nationalgalerie em Berlim, não havia curiosidade maior do que ver o grande, inigualável representante do estilo Romântico, Caspar David Friedrich.

 Seus temas tão especiais, tão sublimes (na acepção de Edmund Burke- o sublime  gerando o horror, paralizando a razão) que a nenhum outro pintor se poderia comparar.

 E neste museu eu veria suas grandes obras, inclusive “.O Monge perto do Mar" e "Homem e Mulher contemplando a Lua”. 

Seu simbolismo e melancolia, sua luz escura e sinistra chamavam o meu lado obscuro e com ele dialogavam maravilhosamente, numa catarse facilitada. O espírito do Romantismo estava todo ali, e ali bem na minha frente, o seu maior representante.

Suas figuras -quase sempre de costas- induziam para que tomássemos o seu lugar. Assim, através de suas figuras, podia-se contemplar as manhãs nebulosas, as noites escuras, as tempestades aterradoras, as ruínas. Eu “vestia” suas figuras de costas e por isso sem rosto, pois o rosto identifica e individualiza. Meu olhar era o olhar da figura de Friedrich, numa subjetividade fina. Com figuras reduzidas à miniaturas diante da paisagem imensa, fatalmente nos levava ao infinito.

Friedrich nasceu na cidade de Greifswal, no mar báltico, em 1740. Perde sua mãe aos 7 anos e casa-se com Dorothea Bechly com quem tem 3 filhos. Estuda em Copenhagen onde tem aulas com mestres seguidores do movimento “Sturm und Drang” (Tempestade e Ímpeto) que propõe temáticas do folclore nórdico para uma pintura mais nacionalista. De lá, Caspar se instalou em Dresden, centro da música, da Arte e das letras românticas (onde Goethe também viveu). Foi conhecido como o homem que descobriu a tragédia da paisagem. Os expressionistas e surrealistas o descobrem nos anos 20, 30. Por ser interessante aos nazistas (dado ao aspecto nacionalista) perde a popularidade novamente até que nos anos 70 ganha nova valorização e uma importância internacional.

A identificação do homem com a natureza é um tema que permeia todas as suas obras.  “São como momentos cristalizados” diz o historiador Donald Reynolds “há uma sutil manipulação da luz. Sua obra transmite uma coerente -ainda que alarmante-visão da vida expressa através da paisagem”

É o que vemos em Goethe, em “Os sofrimentos do Jovem Werther”. A natureza é indomável, assim como as paixões. O Romantismo é muito preso à literatura (Baudelaire, Byron, Schiller, mas sobretudo Goethe) Viviam a nostalgia do Paraíso Perdido. Valorizavam os estágios anteriores ao conhecimento, quando não havia a ruptura do homem com o cosmos (Idade Média). Aqui já se sente a ameaça da industrialização. Os artistas vão fugir para o mundo da imaginação, a originalidade mais do que o conhecimento é o que importa. Em oposição ao clássico que cumpria regras objetivas, aqui há o mergulho no “eu” com tudo o que tem de destruição. (veja-se a onda de suicídios na Europa com a leitura do livro de Goethe!) A própria obra estabelece suas regras “eu sinto, logo existo”.

O que importa é a projeção de sua vida íntima e esta não tem regras. É mística, selvagem, espontânea. Há um desregramento dos sentidos.

Caspar David Friedrich em “Nascer da lua sobre o mar” mostra um mar plácido com figuras ensimesmadas (sempre de costas) mirando o horizonte num contato íntimo com o universo. A moldura corta a paisagem (como nos demais quadros) deixando com que imaginemos o infinito. “Em Frade Capuchinho à beira mar” há uma solidão avassaladora, com um céu ameaçador e um opressor vazio existencial.O frade, sozinho e vertical, une os 3 elementos, mar, terra e céu, 3 linhas horizontais.Suas cores são deslocadas da realidade. O frade está só e inquire aos céus sobre as grandes questões humanas pelas quais se sente oprimido. Ele olha o vazio que está fora e que está dentro. Tudo isso numa alegoria psicológica do ser e de sua existência, num espanto do sublime. Conforme o filósofo Schelling a paisagem de Friedrich era um envoltório do tema. Ele apenas induzia a uma razão que o espectador deveria chegar. Alguns dizem que seria religiosa. Mas é difícil passar uma ideia religiosa sem esta ser explícita.

Caspar David Friedrich morre na pobreza e deprimido. Mas ele é uma experiência do sublime como nenhuma outra. Ele engrandece nossa existência.
Angela Weingärtner Becker
Nicolas Poussin (1594-1665)


Nasce na Normandia e vai para Paris em 1612. Segue para Roma em 1624, destino obrigatório a todo artista, pois lá estava o centro de tudo. Ele detestava Paris. Para lá regressa somente em 1640-42, persuadido pelo próprio rei Luís XIII e o poderoso cardeal Richelieu.


Antes de ir para Roma, frequenta em Paris pequenos ateliês. Mas logo Roma exerce seu fascínio e ele vai sob a proteção do poeta Marino que o apresenta aos intelectuais Francisco Barberini e Cassiano dal Pozzo, este um patrono das Artes. Surge aí um caminho profícuo para o pintor que adota Roma como cidade amada.


Suas obras são cheias de mitos, signos, referências e menções. “É preciso perder tempo diante de seus quadros” diz o professor do MASP, Renato Brolezzi. A dedicação diante dele é que vai permitir com que possamos retirar o máximo de conclusões que não se dariam en passant. E, continua “a inteligência da obra de Arte não acontece solta, ela faz parte de um todo”.


Poussin pinta tanto temas pagãos como temas católicos (mesmo em plena Contra-Reforma).O MASP possui a obra “Himenaeus travestido durante um sacrifício a Príapo”.Tema grego por excelência. Príapo é filho de Vênus e Baco, a quem as jovens dançavam antes do casamento, pedindo fertilidade.


Dizem que Poussin, detalhista ao extremo, planejava em um tabuleiro, com figuras de cera, antes de começar o quadro. Perfeccionista, matemático. Tudo no quadro é parado, sem movimento algum, embora seja uma dança. Ele usa o modelo da estatuária, conta o professor Brolezzi, e os figurantes têm os rostos padronizados e os gestos coreografados. De si exigia o rigor absoluto mas ao mesmo tempo tinha uma luz clara e intensa. Era um artista da inteligência e da beleza com ordenamento racional, sem perder a sensibilidade. Não foge do equilíbrio nem perde o controle. Suas cenas de bacanais são orgias contidas dentro da moldura. Tudo está estruturado, tem permanência. E isto faz dele um artista pleno: intelectual com paixões na alma. Seu modelo é Ticiano e depois Rafael.


Seu quadro religioso, “A sagrada família” tem uma arquitetura matematicamente clássica, onde as figuras são distribuídas em triângulo, com precisão. Há, no entanto, uma luz caravaggesca iluminando uma faixa que atravessa o quadro. O primeiro plano, por sua vez, é cheio de símbolos.


Embora Poussin tenha feito sucesso tanto em Roma como diante das mais altas autoridades da França, ele teve vida sofrida com intrigas da corte francesa (quando retorna da Itália fica ali somente dois anos). Antes de ser famoso, em um duelo, mata um rapaz e vai a pé para Paris.


Poussin é admirado e seguido por futuros pintores franceses tais como Jacques–Louis David, Ingres e Cézanne. Este último admirou em Poussin a geometria, a razão, a harmonia formal. Nicolas Poussin, é até hoje na França, um mito nacional.

Angela Weingärtner Becker