Chaim Soutine (1893-1943)
Nasce em Smilovichy, Lituânia, numa cidadezinha de 400
habitantes. Neste povoado judeu a pobreza era endêmica, a religiosidade
ortodoxa, o conservadorismo absoluto. Sua atividade como pintor foi plena deste
gueto (mas sem a deliberada reminiscência como foi com Chagall). “Os apátridas
não abandonam nem renegam as tradições de seus países de origem, pelo
contrário, introduzem-nas, combinando-os, na circulação da sociedade
cosmopolita” observa Giulio Argan, em seu livro Arte Moderna.
Porém com Soutine o movimento foi de melancolia e liberação (nunca
resolvida) daquela cidade de casas de madeira cinzentas, do tempo frio e igualmente
cinzento.
Soutine era o décimo de onze filhos. Seu pai era alfaiate, a
mãe muito dura, em seu árduo trabalho da casa cheia de filhos. Ela, velha antes
do tempo, com muito medo, pouca comunicação, muita superstição e escassa
afetividade.
Aos 13 anos, Soutine adora desenhar em qualquer papel que
encontra ou até em muros e paredes. Era ridicularizado pela família, pelas outras
crianças e punido fisicamente por isto. Seus irmãos batiam nele dizendo que
um judeu não devia pintar. De fato as imagens eram proibidas pela religião.
Essas pequenas crueldades se tornaram um ritual constante na vida do menino que se
escondia de todos até que a fome batia e ele era obrigado a sair de seu
esconderijo e ir procurar comida na cozinha de casa. Mas, ao menor ruído, era
surpreendido pelos irmãos que o aguardavam para lhe bater ainda mais. Certo dia -quando tinha 16 anos- pediu a um senhor judeu para posar e lhe fazer o retrato. No dia seguinte, o filho deste
homem com seus amigos pegaram Soutine e lhe deram uma surra. Por uma semana ele
não conseguiu dar um passo, estava quebrado. Sua mãe, então, deu queixa na
polícia e Soutine recebeu como compensação o valor de 25 rublos. Com o
dinheiro foi para a cidade próxima,
Minsk, para se tornar artista.
Um ano depois Soutine vai para Vilna e se matricula no curso
de Belas Artes. No exame de admissão fica tão nervoso que erra a perspectiva ao
desenhar um cubo e um cone. E chora muito. Com pena dele, o diretor da escola lhe
dá nova chance. Sozinho na sala se sai maravilhosamente. Faz o curso de três anos com
brilhantismo. É ali que, pela primeira vez, entra em contato com os mestres da pintura
universal. É ali também que, ao contrário dos outros alunos que recorriam à
natureza como inspiração, ele busca temas evocativos de tristeza, miséria e
sofrimento. Começa a desenvolver um estilo emotivo, agitado, enérgico,
personalíssimo. A emoção transborda de seu trabalho e se torna turbulenta e
movimentada num expressionismo veemente.
Muda-se para Paris em 1913 e, sendo um expressionista,
matricula-se na Escola de Paris. Lá junta-se aos outros artistas em
Montparnasse. Conhece Modigliani e é seu modelo para muitos retratos. Nos primeiros
tempos, em Paris, come do pão que o diabo amassou. Às vezes ficava horas parado em frente
a um café para ver se alguém lhe oferecesse um sanduiche para matar a fome.
Conta-se que expulsava os percevejos de sua cama com o método da panelada de querosene
e que improvisava ceroulas como camiseta. Mas apesar de tudo, para Soutine, os
anos em Paris eram menos severos do que os tempos de sua infância. Sua energia
para o trabalho o conservava bem vivo.
Seu estilo de
empastar a cor era muito diferente de todos embora tivesse influências de van Gogh,
El Greco, Rembrandt, Cézanne. De van Gogh tinha a característica profunda da
personalidade melancólica e agitada, Cézanne lhe toca na questão espacial, cor,
volumes e articulação de planos. El Greco lhe traz a distorção acomodada no
espaço comprimido. Copia Rembrandt na pintura das carcaças de animais mortos (certa
vez os vizinhos bateram em sua porta para saber de onde vinha o cheiro de carne
podre). Pintava violenta, convulsiva e angustiadamente. Quando pinta paisagens “lemos”
árvore, estrada e colina, com sentido diferente, diz Wendy Beckett. Seus
quadros são delirantes, de grande força, movimento e fluidez
Em 1923, o colecionador americano Albert Barnes (vide o
artigo neste blog sobre a fundação Barnes) compra quase toda a sua produção
disponível e Soutine sai da miséria.
Em 1937 é convidado a fazer parte da exposição dos artistas
independentes, coisa rara entre artistas não-parisienses.
Chega a Segunda Guerra Mundial e Chaim Soutine, oficializado
como judeu, obriga-se a se refugiar. Segue para as cidadezinhas
próximas de Paris onde tem de trocar de esconderijo constantemente. Torna-se ainda mais
angustiado e doente. Em 1943 sofre uma ruptura de úlcera. Demora o
atendimento para ser levado a Paris onde será operado. Morre na mesa de
cirurgia.
Angela Weingärtner Becker


















